Toda linhagem carrega uma força que a sustenta.
A nossa começa com Ana.
Ana nasceu em 1872, em Portugal. Veio para o Brasil trazendo pouco nas malas, mas carregando algo que não se perde com o tempo: fé viva. Suas mãos eram quentes, sua voz baixa, e as orações que murmurava pareciam mais antigas do que ela mesma. Benzia quebrante, ar, bucho virado. Dizia que nenhuma cura acontecia se o coração de quem benzia e de quem recebia não estivessem no mesmo compasso. Para Ana, o gesto era tão importante quanto a reza — e o silêncio, parte do ritual.
De Ana nasceu Encarnação, em 1900, já em solo brasileiro.
Com ela, o dom deixou de ser apenas herança e passou a ser missão.
Encarnação benzia principalmente crianças. Erisipela, simioto, sapinho. Em troca, pedia a fotografia da criança curada. Com o passar dos anos, um grande baú foi se formando — não de objetos de valor, mas de testemunhos. Rostos pequenos, olhares vivos, registros silenciosos de algo que não se explica, apenas se sente. Aquele baú era a prova material de que a fé, quando atravessa o corpo, deixa marcas reais.
A terceira geração veio com Aparecida, nascida em 1930.
Neta de Ana. Filha de Encarnação.
O quintal de Aparecida tinha cheiro de ervas e café recém-passado. Cada planta guardava uma reza. Cada canto da casa parecia conhecer seu lugar no mundo. Ao seu lado cresceu Cirina, nascida em 1939, sua irmã e futura madrinha de Maria Helena. Juntas, eram como duas preces em harmonia: uma falava, a outra completava em silêncio.
O pano branco no colo, o vidro de azeite e a oração eram ferramentas.
Para o simioto, mãos leves e óleo, soltando ossos da fina camada da pele.
Para o ar, a faca contornando a cabeça, com palavras firmes, quase de comando.
Cada benzimento tinha sua própria ordem. Seu próprio ritmo. Seu próprio respeito.
E então, em 1960, nasce Maria Helena.
Bisneta, neta, filha e afilhada de benzedeiras.
Com ela, a linhagem não se quebrou — se assentou. Suas mãos aprenderam cedo que benzer não é espetáculo, é presença. Não é força, é firmeza. Não é urgência, é cuidado. Havia luz em suas mãos, como se cada geração anterior tivesse deixado ali um pouco do que sabia.
Foi nessa casa de rezas que, ainda criança, aos sete anos, descobri algo que me ligava também a essa herança. Com uma forquilha de madeira nas mãos e o coração em silêncio, encontrei água pela radiestesia. A terra respondeu. Naquele momento, entendi que o dom da família não era apenas benzer — era ouvir o invisível e servir ao que sustenta a vida.
Essa história não vive em fotografias antigas ou lembranças distantes.
Ela continua respirando.
Cada gesto carrega memória. Cada silêncio guarda uma oração que já foi dita muitas vezes antes. Nada nasce do zero quando existe uma linhagem. Tudo é atravessado pelo que veio antes.
Aqui, nada é apenas feito.
Tudo é sustentado.
E assim seguimos: mantendo acesa, no presente, a luz que nos foi confiada lá atrás — passada de mão em mão, de geração em geração, como quem protege uma chama viva.
Feito pelas mãos que benzem.
